A Era das Trocas

 

Porque já há muito falamos de trocas e poupança, principalmente através de contactos com quem nos segue pelas redes sociais, decidimos oficializá-lo aqui no blog do Encruzilhadas Literárias.

Todos sabemos o quão caros pode ser adquirir um livro na actualidade. Geralmente aproveito as feiras dos livros e as promoções, mas fora disso evito gastar para não fugir do orçamento. Na verdade, confesso que os meus hábitos de leitura tiveram de se adaptar às circunstâncias, dado que é impossível acompanhar o ritmo de mudança no mundo editorial. É certo que as próprias livrarias e grupos editoriais já tomaram consciência da descida da procura e, como tal, promoções e constantes marcos de marketing têm vindo a ser realizadas (confirme quem segue online alguns sites como o da Editorial Presença ou da Wook).
Assim como eu, tantos outros leitores viram-se sujeitos a comprar menos, a gastar menos e não digo ler menos porque esse é o factor chave deste artigo.

Com as necessidades de poupar, certos movimentos ou tendências têm vindo a crescer, de forma a continuar a incrementar a leitura e a renovar as estantes lá de casa. Vamos então abordar o que acontece relativamente ao empréstimo e troca de livros, e que outras acções isso tem promovido.

 

Empréstimo - Os empréstimos de livros a amigos são um fenómeno constante. Quem é que não tem um amigo com gostos semelhantes a quem recorre de tempos a tempos para ver as novidades das prateleiras? Na verdade, o que tem crescido é o ânimo e vontade de partilha, assim como momentos e tertúlias sobre os livros que tanto gostamos. Para além disso, e se existe facilidade e confiança, começam a surgir compras a dois ou três, em que o mesmo livro pertence a uma pequena comunidade e anda de mão em mão, visitando estantes diferentes. E quando não se trata do mesmo livro, são packs que satisfazem todos os intervenientes. Esta modalidade dos packs é sem dúvida uma das mudanças mais sentidas, já que começam a ser recorrentes, em diversas livrarias (embora mais nas de grande dimensão, o que se justifica pela possibilidade de cobrir o gasto que nem sempre existe nas pequenas livrarias). Por outro lado, a dimensão que o mundo digital ganhou nas nossas vidas cria novas possibilidades. Falo-lhes por exemplo do Clube BlogRing que descobri através da aplicação do GoodReads. É um clube de empréstimo de livros criado por uma rapariga bibliófila como nós, e que funciona maioritariamente por correio. Uma pessoa tem a oportunidade de se inscrever para um determinado livro, fica em fila de espera, e o livro vai passando de mão em mão até regressar à dona original. A parte boa é sem dúvida a confiança que se estabelece entre as pessoas e a partilha que vai sendo feita, de opiniões, de novidades literárias, até de outros assuntos não directamente relacionados.  Alguns membros começam também a já disponibilizar alguns livros, o que permite criar uma maior dinâmica e agilizar as trocas.
Por outro lado, as bibliotecas municipais são cada vez mais um ponto de encontro entre a procura e a oferta para os leitores e a adesão pela grande maioria aos catálogos digitais facilita o acesso rápido à informação, requisições e renovações a partir de casa, pedidos de novos livros, entre outras modalidades. E os clubes de leitura mensais acabam por criar um novo espaço de interacção. Acho que cada vez mais o acto de ler deixou de ser uma acção solitária e individual. Tem uma série de momentos que só têm incrementado o contacto, a envolvência com pessoas de outros meios e nesse sentido é um factor de inclusão social e de incentivo à leitura.

Troca de Livros - O movimento do bookcrossing chegou a Portugal há alguns anos. Foi criado em 2001 por Ron Hornbacker e hoje chega a mais de 130 países. O objectivo é colocar livros a circular, criando um registo no site com um código e quem o encontrar, num banco de jardim, na paragem do autocarro, pode levá-lo e ficar com ele. O próximo passo é registá-lo no site para que se saiba por onde ele pára e perceber qual o percurso que ele já fez. Por esse motivo, e muitas vezes mais pela dinâmica de troca do que pelo livro em si, o projecto tem tido sucesso. Em Portugal existem 65 crossing zones, curiosamente em bibliotecas municipais muitas vezes (mas também em cafés e universidades) que facilitam o acesso aos livros, numa nova modalidade do conceito. 
Por outro lado, e porque nem sempre as pessoas gostam de ter livros riscados, surgem modalidades semelhantes mas que a troca por troca é feita directamente com os livros disponíveis na estante e não exigem qualquer tipo de controlo. Era o que se sucedia, por exemplo, com os Cafés Magnólia até os mesmos terem fechado. E no Complexo Desportivo do Jamor iniciou-se mais um ponto de troca portanto para as pessoas da área da Grande Lisboa é de aproveitar. O único problema destes últimos é que nem sempre são tão publicitados e portanto acaba por criar uma barreira à troca.
Outro exemplo foi um recentemente implementado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mas que por acaso não teve muito sucesso, em parte por responsabilidade dos alunos. A Livrearia é um conceito importado da Alemanha e, à semelhança do anterior, faculta livros através de estantes colocadas em pontos estratégicos. A novidade é que não precisam de fazer uma troca directa. Pode-se levar livros emprestados e devolvê-los depois, fazer trocas, ou simplesmente deixá-los para outros os verem. Foram colocados junto de vários departamentos de formação mas sendo para livros escolares foram todos levados e nenhum retornou à estante original. Neste momento foi adaptado para algo semelhante ao exemplo anterior, de troca por troca.
Para finalizar, são as redes sociais que ganham uma grande dinâmica. Existem grupos de troca, de venda em 2ª mão ou para ambas as finalidades no facebook por exemplo. As trocas são feitas por correio mas muitas vezes em mão também, sendo mais económicas e pessoais.  O Bookmooch estabelece trocas através de pontos. Quanto mais livros estiverem para troca, mais pontos se adquirem e maior possibilidade há de ter acesso àqueles a que tanto querem deitar a mão. O Winking Books é algo bastante semelhante e funciona também por sistema de pontos. 

Sem dúvida que muitas vezes as pessoas que utilizam uma plataforma ou sistema utilizam outra e acabam por criar lados e reconhecerem-se nos mais diversos destinos digitais. O que todas estas oportunidades trazem são hipóteses de poupar mas também de ter acesso fácil a novos livros. Lembro-me que ainda esta semana uma pessoa que conheço dizia já ter poupado quase 500 euros em 5 meses por utilizar estes processos. É qualquer coisa bastante significativa.

 echi (72)

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

2 leitores reagiram:

  1. Olá Cláudia adorei o post e adorei a imagem final, linda, que roubei para quem sabe usar no futuro!

    Boas leituras e continuação de bom fim-de-semana.

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  2. Meninas adorei o post, como sempre! e as minhas amigas leram e tmb gostaram, hoje já comentaram comigo que eu poupo imenso com as trocas que faço :)

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